Como a tecnologia está mudando a alfabetização?

Crianças têm contato com tecnologia cada vez mais cedo e ensino precisa se adequar

Um bebê se entretém profundamente com um vídeo de conteúdo infantil no tablet ou celular, substituindo o choro pelo silêncio, para alívio dos pais, e os aparelhos acabam quase que substituindo a chupeta.

Passando por toda a primeira infância, esse contato com tecnologias digitais acontece cada vez mais cedo. Com isso, o tempo no celular toma, muitas vezes, parte do tempo das primeiras experiências de desenho e escrita à mão, como era no passado. Como, então, a alfabetização na escola se adequa esse novo contexto?

Em 32 anos de experiência como professora alfabetizadora em escola pública, Mara Mansani, autora do Blog de Alfabetização de NOVA ESCOLA, ainda não vê grandes mudanças na prática pedagógica.

“As possibilidades de texto aumentaram e não sei se as escolas estão preparadas para isso. Tenho um aluno de seis anos que acessa a internet, não escreve, não gosta de grafar, mas já está alfabético”, afirma. Em geral, ela observa que crianças pequenas já usam comandos de voz no celular para conseguir assistir a vídeos –demandas que não exigem o letramento.

Ela aponta que as experiências cada vez mais precoces de uso dos teclados podem ajudar “a aprender o alfabeto por si só”, mas o acompanhamento do professor é imprescindível para se desenvolver um letramento amplo. “A tecnologia não vai fazer a diferença. Ela não é fim, ela é meio”.

O equilíbrio entre proporcionar vivências analógicas e digitais, portanto, parece traçar pelo menos dois caminhos necessários ao professor alfabetizador. O primeiro é garantir que a criação das hipóteses de escrita se desenvolvam com lápis ou giz, papel, letras móveis e outros recursos que potencializam as relações de grafema-fonema (entre grafia e letras e os sons das sílabas), e a compreensão global de palavras e textos. O segundo é, também, introduzir características próprias da cultura letrada digital, que toma (com telas, teclados, vídeos e hiperlinks) grande parte das tarefas de nossas vidas — inclusive a de ler esse texto.

“A tecnologia traz outras possibilidades para o que as crianças estão vivendo. O ruim é fazer das interações com celulares e tablets as únicas interações”, diz Andrea Luize, selecionadora de alfabetização do Prêmio Educador Nota 10.

Ela sugere que toda atividade pedagógica deve ser pensada para o uso social da tecnologia. Por exemplo, para listar remédios num consultório médico, é natural que as crianças possam fazê-lo num computador. Uma lista de supermercado, por outro lado, que sugere interação física com alimentos, pode ser feita no lápis e papel.

A seleção de práticas sociais se impõe no dia a dia do processo de alfabetização. O ato de digitar por digitar, como ao preencher um questionário em um tablet, tornando o uso do tecnológico algo sem propósito que vá além do contexto escolar, é reduzir oportunidades para o letramento.

“Se a criança aprendeu a ler e escrever, vai guardar o que foi aprendido para a vida toda porque isso tem um significado para ela, sabe que precisa disso para se comunicar. Já quando o significado é fraco, ela acaba esquecendo”, disse Cristina dos Santos Cardoso de Sá, professora da Unifesp e doutora em neurociência do comportamento.

BUSCA NO GOOGLE

Se a atividade de escrita também deve provocar a pensar sobre o objetivo do que se está escrevendo, uma atividade de busca no Google, talvez a tarefa mais banal de nossos dias, pode conferir significados importantes, como sugerem Andrea e Mara.

Renata Frauendorf, coordenadora de projetos do Instituto Avisa Lá, conta que propor uma atividade em que crianças dos anos 1 e 2 da Educação Infantil buscam uma galeria de imagens de personagens de livros na internet é também suscitar uma série de perguntas ao longo do processo: O que quero procurar? Como o nome da Chapeuzinho Vermelho está escrito? Por que aparece a imagem que procuro quando escrevo corretamente?

“Nas situações de sondagem, em que a gente pede para as crianças escreverem uma lista de palavras de um mesmo campo semântico, algumas crianças grafam de próprio punho e te revelam, talvez, um saber menor do que de fato elas tenham. Conhecendo as possibilidades da criança, peça para ela fazer a mesma lista utilizando um teclado. Por que ela pode conhecer as letras, mas não ter se apropriado da [técnica] de como grafar as letras”, afirma Renata.

Para a educadora, o exercício pode revelar hipóteses de escrita não tão facilmente identificáveis e pode dar mais informações para o professor avaliar, de forma mais completa, o saber da criança — principalmente nas hipóteses de escrita pré-silábica e escrita silábica sem valor sonoro convencional. O uso das letras móveis pode ser um recurso com o mesmo objetivo.

Se realizadas com intencionalidade, as práticas pedagógicas com recursos digitais podem influenciar a criança na “noção de espaçamento [de letras e palavras] e nas decisões sobre a disposição do texto em página; na experimentação de formas, cores e tamanho das letras e na percepção das marcas e correções automáticas de ortografia”, como diz o verbete “alfabetização digital” do glossário do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita (CEALE) da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), se apoiando em pesquisas da autora Emilia Ferreiro, citada pelas três educadoras entrevistadas como referência no tema.

E, é sempre bom lembrar que, de acordo com o guia lançado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) no primeiro semestre desse ano com recomendações sobre o tempo de tela de crianças, para diferentes faixas-etárias, as crianças com menos de 2 anos não devem ter contato com telas de TVs, celulares e tablets. Ainda de acordo com o guia, crianças com 2 anos ou mais não devem ficar mais de uma hora por dia diante das telas.

Professores e pais precisam estar atentos para impor limites ao tempo de uso de telas para crianças, de acordo com as diferentes faixas etárias, além de sempre promover o uso consciente e mediado por um adulto.

 

Fonte: http://bit.ly/2m6lZu6